Uma das das mais valiosas contribuições de Bert
Hellinger foi trazer à luz o fato de que além da consciência pessoal também estamos vinculados a uma consciência
coletiva. Este é um dos principais conceitos que fundamentam as constelações familiares.
Inicio aqui a transcrição de alguns textos e entrevistas nos quais ele fala e escreve sobre este assunto.
Constelações familiares e consciência(1)
Para compreender a fundo o trabalho da constelação
familiar, temos que nos abrir e compreender que em qualquer família ou grupo há
uma alma comum trabalhando, uma alma familiar ou grupal. Tratarei de dar uma
imagem da função que tal alma grupal deve ter tido no passado, e que ainda
continua a ter. Também vou dizer algo sobre as "ordens" (leis) que
esta alma traz para ser. Eu tenho uma imagem. Meu objetivo não é
necessariamente buscar precisão histórica ou demonstrar algo. Mais exatamente
quero proporcionar a possibilidade de as pessoas tomem medidas que vão em
direção à mudança. Minha preocupação é ampliar nossa compreensão do papel que a
consciência desempenha e desses impulsos inexplicáveis que muitas vezes
terminam em tragédia. Isso deveria abrir o caminho para nos ajudar a resolver intrincações
trágicas ou até mesmo para evitar que ocorram.
Os grupos originais eram tribos que agrupavam
aproximadamente vinte e trinta membros. Eram altamente interdependentes e era
impossível para qualquer indivíduo deixar o grupo, fosse qual fosse a situação.
Da mesma forma, era inimaginável que alguém fosse excluído dessa relação de
parentesco, com uma possível exceção: se alguém matasse outro membro do grupo.
Um eco disso pode ser encontrado na história de Caim e Abel.
O direito ao Pertencimento
nesses grupos havia "duas ordens" fundamentais.
A primeira "ordem" era que cada membro tinha o mesmo direito de
pertencer ao grupo. Era inconcebível que qualquer membro negasse esse direito a
outro. Da mesma forma, cada membro sabia que o bem-estar do grupo tinha prioridade
sobre suas necessidades pessoais. Dentro de um grupo de nômades, os idosos ou
os doentes seriam inevitavelmente deixados para trás e abandonados assim que
fossem um fardo para o grupo. Eles estavam prontos para morrer e ninguém teria
ficado em seu caminho por causa de um apego pessoal.
... a sobrevivência do grupo tinha preferência
sobre qualquer tipo de compaixão por um indivíduo. Isso era cruel? Não, eles sabiam seus limites e assentiam a
isto. Aqui vemos que o direito de pertencimento ao grupo era menor do que o do
bem-estar do grupo como um todo. Tudo se orientava em função da sobrevivência e
continuidade do grupo.
A Ordem Sistêmica (de acordo com a antiguidade)
A segunda "ordem" neste tipo de grupo
garantia a prioridade aos membros anteriores ou mais velhos sobre aqueles que
vieram mais tarde, ou eram mais jovens. Desta forma, cada membro do grupo tinha
o seu lugar no sistema. Com o tempo, um indivíduo progredia de uma forma
completamente natural de uma posição inferior para uma posição mais elevada na hierarquia,
e desse modo, não havia conflitos de hierarquia no grupo.
Consciência Coletiva
Estas duas
"ordens", o mesmo direito ao pertencimento, e a prioridade para os
primeiros ou membros mais antigos não surgiram de qualquer consideração
racional. Eles foram predeterminados para o grupo "por uma consciência
coletiva". Qualquer transgressão
dessas "ordens" dava lugar a uma má consciência e o sentimento de
culpa garantia que um indivíduo voltasse a respeitar adequadamente as
"ordens". Também podemos chamá-lo de "consciência grupal"
ou "consciência familiar", e é diferente da "consciência
individual" da qual eu vou falar mais adiante. Na sociedade contemporânea,
esta consciência familiar tornou-se em grande parte inconsciente, mas em tempos
pré-históricos, em um grupo tribal, deve ter sido consciente, pelo menos o
suficiente para causar sentimentos de culpa em seus membros se as
"ordens" fossem transgredidas, e sentimentos de inocência, uma vez
que o delito se reconhecido e se expiado.
Consciência Pessoal
Ao se desenvolver a troca
e o comercio entre estes pequenos grupos tribais se desenvolveu também o
conceito de "nós" e "eles", bem como o sentimento de
"pertencimento" ou "não pertencimento. Posteriormente, isso
levou a uma diferenciação entre "bons" e "maus", ou
"melhor do que" e "pior do que". Em uma fase posterior,
essas diferenciações também foram dadas no grupo através de declarações como
"Eu sou melhor do que você", ou "Eu tenho mais direito do que
você de pertencer". Assim, juntamente com a "consciência
coletiva" e seus sentimentos concomitantes de culpa e inocência, uma
"consciência pessoal" foi desenvolvida que foi guiada pelos
imperativos morais do bem e do mal. Essa consciência pessoal levou a um
processo de individualização e consciência individual, com a qual diferentes
membros do grupo mantinham valores diferentes uns dos outros. A partir daí,
desenvolveu-se uma polarização entre o indivíduo e o grupo, e entre a liberdade
individual e as normas e expectativas do grupo.
Ao longo dessa evolução,
as normas e leis relativas à consciência coletiva foram empurradas para o reino
do inconsciente e já não se expressariam diretamente. Dessa forma, a
experiência individual tornou-se mais importante do que as necessidades do
grupo, de forma que a consciência pessoal assumiu grande parte do lugar que anteriormente
ocupava a consciência coletiva. Isso foi tão longe, que as pessoas
interpretaram a voz da consciência pessoal como a voz de Deus, dando-lhes o direito
de se opor às normas do grupo e culminou com a separação do indivíduo do grupo
e sua consciência coletiva.
Sem embargo, esta
consciência coletiva não deve ser esquecida. Na verdade, não pode ser ignorada
porque é a base de toda a convivência humana e sempre será assim. Não importa quanto
amplamente possa uma arvore desenvolver seu tronco ou estender seus ramos; sem
suas raízes, ela vai morrer. Em termos de relações humanas, isso não significa
que devemos duvidar do valor da consciência pessoal. O que isso significa, sem
embargo, é que temos de estar conscientes das nossas raízes novamente e nos deixar
levar, nutrir e limitar por elas.
Constelações familiares
O que tudo isso significa
para constelações familiares? Nas Constelações familiares se revelam e
experimentam as diferentes maneiras pelas quais a consciência pessoal e a
consciência coletiva continuam atuando. E se pode ver claramente as
consequências assustadoras e perigosas da repressão e negação da consciência
coletiva. Aqui é aonde, apesar das nossas melhores intenções, se produzem os
fracassos em termos de doenças que ameaçam a vida, de acidentes graves, de criminalidade
e de suicídio. Todos esses sintomas indicam ignorância e transgressão das
"ordens" da consciência coletiva, e por sua vez dão uma ideia de como
podem se resolver estas intrincações ou diminuir-se ou, possivelmente, evitar-se
no futuro...
... As Constelações
Familiares nos dão uma ideia do que está por trás de muitos destinos trágicos e
permitem a possibilidade de uma mudança benéfica para todos nós. O trabalho
honra as exigências da consciência coletiva e as traz de volta à nossa
consciência, sem comprometer as realizações individuais feitas através da
consciência pessoal. Isso conecta as duas consciências a um nível superior,
permitindo que o indivíduo transcenda os limites de seu pequeno grupo e se
sinta parte de um todo maior, sem comprometer sua individualidade. Nesse
sentido, constelações familiares servem para a reconciliação dentro de um
grupo, e entre os grupos, são movimentos em direção à paz.
Segue-se que, para trabalhar efetivamente com
pessoas em constelações familiares, elas devem ter entendido, internalizado e
integrado dentro delas as "ordens" de consciência pessoal e
consciência coletiva. Eles também devem ter transcendido e experimentado a
reconciliação pessoal em um nível mais alto, no nível do que podemos chamar de
"consciência da grande alma". Se for alcançado, então uma pessoa pode
acenar para as "ordens" subjacentes da consciência coletiva, mas ao
mesmo tempo pode ir além dessas limitações. A serviço disso algo maior, é
possível manter intacto o que pertence à nossa evolução humana e, ao mesmo
tempo, crescer como indivíduos para alcançar o máximo de realização pessoal.
Autor: Bert Hellinger
Tradução do Espanhol de Marcia Paciornik